quarta-feira, 18 de junho de 2014

Transhomem: “Se não fizer a cirurgia, serei infeliz para o resto da vida”

Durante o namoro com radialista Marina Tomelli, estudante Thomas Tomihero deixou identidade de mulher lésbica para se assumir como homem transexual e teve apoio da namorada

Por conta da questão de gênero, Thomas acabou se tornando introspectivo.
“Sou uma pessoa incompleta, ela nunca vai me querer”. Esse foi o pensamento que passou pela cabeça do estudante de farmácia Thomas Carrilho Tomihero quando ele viu a radialista Marina Tonelli na fila de entrada do show da banda My Chemical Romance, em São Paulo, em 2008.
Mas quatro anos e meio depois disso, o jovem transexual descobriu que estava enganado, iniciando um namoro com Marina, que já dura um ano e meio. A relação inclusive se fortaleceu quando Thomas deixou sua identidade de mulher lésbica para se assumir como transhomem.
“Nos encontramos em um show da banda Fresno, no Parque Ibirapuera. Não nos falávamos há um bom tempo, mesmo assim a Marina veio me dar oi” , recorda Thomas. “Desde aquele momento não nos separamos mais”, acrescenta Marina. Ambos com 22 anos, os dois dividem um apartamento da cidade de São Paulo.

Na decoração do lar do casal, se misturam retratos do escritor Edgard Alan Poe e do pensador Friedrich Nietzsche e um boneco Mickey de pelúcia. Adesivos do My Chemical Romance, por motivos óbvios, também decoram o ambiente.

Mas para a felicidade do casal estar completa ainda falta uma mudança muito importante na vida de Thomas. Nascido biologicamente no corpo de uma mulher, o estudante quer assumir completamente sua identidade masculina fazendo tratamento hormonal e uma cirurgia para retirar os seios.
“Com nove anos, comecei a me desenvolver. Desde então, ninguém mais me viu sem blusa. Passei a usar sempre um casaco de moletom, não importando se estava sol e calor”, admite Thomas, que usa uma cinta modeladora para esconder os seios.

Apoiando totalmente as mudanças que o namorado pretende fazer em seu corpo, Marina diz que Thomas se sente profundamente incomodado por ainda ter formas femininas. “Ele repara em coisas nele que ninguém mais repara. Até uma curvinha no quadril o incomoda”, explica a radialista.

Thomas só entendeu que era um homem transexual aos 16 anos, quando começou a pesquisar sobre o tema na internet e em livros. Mas ele só conseguiu se aceitar por completo no ano passado. “O primeiro passo foi conversar com a Marina, algo que não acontecia com as minhas outras namoradas”, relata o estudante.

Marina e Thomas enfrentam preconceitos todo os dias, mas não se deixam abater
Num relacionamento anterior, quando ainda tinha uma identidade feminina, o estudante ficou traumatizado quando a sua namorada na ocasião o deixou para namorar um homem. “Isso me destruiu, deixei de sair de casa”, confessa Thomas.

Hoje, Thomas reconhece a sorte de viver ao lado de alguém que o entende. Marina percebeu desde o início do relacionamento que o estudante tinha um conflito interno. “Quando a gente ficou, senti uma coisa diferente. Já namorei homens e mulheres, notei que ele me beijava como homem, me tocava como um homem. Até dei uma forçada para ele se abrir comigo”, conta a radialista, que viu seu relacionamento fortalecido depois da conversa.
“Não vou dizer que o amo mais por ele ser trans. Na verdade, eu o amo mais pelo fato de ele ter confiado em mim. Por dialogar, por todas as nossas pequenas vitórias”, pondera Marina, dizendo que o namorado está ficando mais confiante e menos introvertido. “Uma dançadinha mínima dele me faz pular”, afirma a radialista.

Thomas faz um processo adequação de gênero no Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids, localizado no centro de São Paulo. Mas ele se ressente com o trâmite lento do atendimento. “Sei que demora anos. Tem gente que esperou 10 anos para fazer a cirurgia nos seios.”

O casal num porta-retrato que decora a casa deles no centro de São Paulo

“Mesmo que eu consiga o dinheiro para fazer a mastectomia, é muito difícil conseguir psicólogos e psiquiatras que me deem o laudo autorizando”, lamenta Thomas, que critica a falta de preparo de muitos profissionais da saúde no atendimento aos homossexuais.

“No CRT, eles são treinados para lidar com travestis e transexuais, e mesmo assim insistiram em me tratar pelos pronomes femininos quando fui fazer o exame. Alguns outros médicos que consultei deram opiniões contrárias ao tratamento hormonal por convicção religiosa”, desabafa Thomas, reafirmando a importância fundamental que a operação de remoção dos seios tem para ele. “Se não fizer a cirurgia, serei infeliz para o resto da vida.

Marina também não escapa ilesa do preconceito, especialmente quando os homens não transexuais descobrem que ela namora um transgênero. “É péssimo. Eles falam que eu preciso conhecer um homem de verdade.”

O casal tenta evitar que os percalços interfiram no seu dia a dia. “Já disse para ele que até os 23 anos quero estar noiva. Já combinamos que vamos nos casar assim que ele completar a adequação. Porque é algo que só podemos fazer quando ele se sentir confortável com ele mesmo”, conclui Marina.

Fonte igay
Fotos Edu Cesar

Nenhum comentário:

Ocorreu um erro neste gadget
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

CINEMATECA GLS

Arquivo de Homens

De Homem para Homem

ASSIM EU ME APAIXONO

ENTRE IGUAIS