domingo, 31 de agosto de 2014

Fotógrafa cria série sobre homens gays na Rússia

No país, apenas 1% tem coragem de se assumir
Solitários. Retratos da série ‘Days of melancholy’, que a fotógrafa russa Tatiana Vinogradova exibe em um festival em São Petersburgo, em setembro: depoimentos comoventes - Divulgação/Tatiana Vinogradova

RIO — Cerca de 70 países no mundo todo, incluindo nações como Índia, Uganda e Singapura, punem os gays, seja com multa, tratamento psiquiátrico, prisão, tortura ou apedrejamento. A Rússia não foge às estatísticas. Uma pesquisa realizada em 2013 pelo Centro Levada mostrou que 74% da população acham que os homossexuais não deveriam ser aceitos na sociedade, sendo que 16% alegaram que o ideal é que os gays fossem isolados, e 5% afirmaram que a solução seria liquidá-los de vez
.

Não é à toa que apenas 1% dos gays russos tem coragem de se assumir publicamente. Com esses dados em mente, surgiu a série “Days of melancholy”, da fotógrafa Tatiana Vinogradova (tatianavinogradova.com): são retratos sombrios de homens gays em seus apartamentos, com luz natural, uma expressão desoladora e solitária. Poucos encaram a câmera. Acompanham as imagens curtos depoimentos, sem autoria, que mostram a dificuldade de se encaixar numa sociedade radicalmente retrógrada e intransigente.

— Procurar homens para posar foi a parte mais difícil do trabalho. Não surpreende que eu tenha recebido tantas recusas. As pessoas normalmente diziam algo como: “Entendo a importância do seu projeto, mas não estamos prontos para assumir” — conta Tatiana, por e-mail. — Felizmente, nem todas as pessoas são iguais. Fico muito agradecida aos homens que aceitaram participar. Eles não tiveram medo de mostrar seus rostos porque estavam ousando ser eles mesmos.

“SER HOMOFÓBICO NA RÚSSIA É ‘NORMAL’”

A legenda de uma das fotos diz: “Não me comunico com a minha mãe há três anos. Ela me falou que pessoas como eu deveriam ser mortas, queimadas, castradas. É estranho que eu tenha sido educado por uma pessoa como ela”. Outro fotografado relata: “Estou tentando me preparar para a solidão. Não alimento ilusões sobre barrigas de aluguel e crianças míticas que podem ser adotadas por gays. Imagino um cenário em que não vou ter ninguém para me enterrar”.

— O retrato é, para mim, o mais difícil e o mais misterioso dos gêneros. Ele convida o observador a estudar a outra pessoa com um imediatismo que nunca poderia ser experimentado na vida real sem algum tipo de constrangimento. Além disso, descreve o quão curioso e corajoso você é: você está cara a cara com alguém, sem escapatória.

Tatiana chama a atenção também para o fato de o projeto — que será exposto em setembro no Queer Festival 2014, em São Petersburgo — se restringir aos homens. Segundo ela, foi uma “escolha deliberada”.

— Os russos são muito mais tolerantes em relação às lésbicas do que aos homens gays. As lésbicas são consideradas sexy e atraentes, enquanto os homens gays são vistos como absolutamente nojentos. Além disso, os homens são alvos de violência com significativa frequência. Provavelmente a intolerância está relacionada à completa ignorância e à mentalidade patriarcal da sociedade. Hoje, ser homofóbico na Rússia é “normal” e até patriótico.

Fonte O Globo
Por Alice Sant’Anna

*Alice Sant’Anna escreve na página Transcultura, publicada às sextas no Segundo Caderno



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