sexta-feira, 7 de novembro de 2014

'Fui demitida por preconceito', diz transexual espanhola

Lorena González trabalhava como estagiária em uma companhia aérea, mas foi dispensada no segundo dia no emprego.
"Simplesmente nascemos em um corpo que não é nosso e temos direitos. Por que devemos ficar limitadas a trabalhar em um salão de beleza ou com prostituição?", diz à BBC a transexual Lorena González, de 45 anos.
"Não nos dedicamos apenas ao mundo dos cílios postiços, das plumas e do salto alto. Outras, como eu, têm outras aspirações e queremos ir além”

É assim que a espanhola de origem colombiana explica sua indignação por sua dispensa de um trabalho que ela acredita ter sido motivada por preconceito.
Lorena é aluna do curso de Técnico de Operações Aeroportuárias da Escola Superior de Aeronáutica (ESA), de Madri, e havia começado um estágio como agente aeroportuária da Turkish Airlines, no aeroporto de Madri.
Mas ela conta que, no segundo dia de trabalho, seu coordenador lhe comunicou que a companhia a havia dispensado por acreditar que ela tinha "cara de homem" e que dava "uma imagem negativa para a empresa".
Lorena relata que ficou em choque e sem reação: "Não sabia o que responder". Para ela, o motivo da demissão foi o fato de ser transexual.
"Se tivessem me dito que não tenho o perfil para o trabalho, teria compreendido. Mas, se me despedem por ser transexual, isso eu não aceito”, ressalta.
Em nota enviada à BBC Brasil, a Turkish Airlines afirma que não houve nenhum preconceito contra a estagiária.
"Neste caso, não existiu nenhum tipo de discriminação, uma vez que a Turkish Airlines realizou o exame dos candidatos ao estágio na empresa, em condições de igualdade, segundo os requisitos técnicos para qualquer aprendiz", esclarece a nota.
A companhia acrescenta que "rejeita qualquer tipo de discriminação, pelo motivo que seja, inclusive a discriminação por sexo" e que, por estar presente em 108 países e ter aproximadamente 20 mil empregados, é "uma empresa com pessoas de todas as culturas, idades, raças e condição sexual".
Procurada pela reportagem, a Escola Superior Aeronáutica não respondeu aos pedidos de entrevista.
Vida discreta, trabalho digno
Lorena afirma que nunca souberam na escola que ela era uma transsexual já que todos seus documentos a identificam como mulher.
"Acho que não tenho de ficar dando explicações. Quando me matriculei, me disseram que estava apta e que cumpria os requisitos e o perfil físico que requer o cargo, como, por exemplo, a estatura", explica.
"Eu me senti muito mal com essa situação, porque sou muito discreta, muito tranquila, uma pessoa normal. E de repente me dizem algo assim. Sei claramente quem sou."
Lorena lamenta também a discriminação que as pessoas transexuais sofrem em algumas profissões. "Não temos o direito de trabalhar dignamente?", questiona.
"Nós, transexuais, podemos exercer muitas profissões. Mas vivemos em uma sociedade onde há muita hipocrisia", critica.
Tudo o que Lorena quer é a oportunidade de exercer uma profissão que considera digna: "Se os empresários nos dão (aos transexuais) a oportunidade de nos conhecer, verão que temos muito valor".
Batalha
O portal de notícias Dos Manzanas, voltado para assuntos LGBT, foi o primeiro a divulgar a história de Lorena.
O jornalista Juli Amadeu afirmou à BBC Brasil que acha que Lorena fez bem ao tornar público o caso.
"Quando uma pessoa sofre discriminação por causa de seu aspecto físico ou sua identidade de gênero, isso é denunciável, para evitar que se repita. Infelizmente, esse tipo de preconceito não é um caso isolado", opina.
Desde a rescisão do contrato, Lorena luta para voltar ao estágio. Lorena relata que, por inúmeras vezes, tentou contato com a escola e com a companhia aérea para conseguir reaver o posto.
Diante das evasivas, procurou advogados e decidiu tornar público o caso, com a ajuda de uma entidade que defende direitos LGBT.
A estudante fez uma petição no site Change.org, no qual exige não ser discriminada por ser transexual e que lhe seja devolvido o estágio. Em poucos dias, quase 75 mil pessoas já assinaram o abaixo-assinado.
"Fiz esse pedido online porque me sinto enganada, prejudicada pela escola, que justifica que não tem nada a ver com a demissão, mas também não fez nada para me defender como sua aluna. Isso me incomoda", explica.
Segundo ela, a direção da escola se comprometeu recentemente a lhe conceder um outro estágio a partir de janeiro, um trato que parece não convencer a estudante.
"Agora tenho de esperar, mas, como sou uma pessoa batalhadora e profissional, vou seguir adiante com o caso."

Visto no G1
Liana Aguiar
De Barcelona para a BBC Brasil

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