terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Nem todos aceitam com naturalidade o próprio desejo por ambos os sexos

Sobre a bissexualidade
Por Regina Navarro Lins

Comentando a Pergunta da Semana

A grande maioria das pessoas que responderam à enquete da semana namoraria uma pessoa bissexual. Isso mostra como os preconceitos estão diminuindo, mas nem todos aceitam com naturalidade o próprio desejo por ambos os sexos.
Para ilustrar como os bissexuais se sentem, selecionei dois relatos:

“Tenho 46 anos, sou casado há 25 anos e tenho três filhos. Não foi fácil admitir que sempre tive desejo por homens. Minha primeira experiência ocorreu ainda criança: um amigo adolescente me colocava no colo para ler livros de histórias. As primeiras vezes foram um misto de estranheza e desconforto, com o membro dele tocando em minha bunda. Mas a repetição tornou a coisa agradável, a ponto de eu não saber o que mais gostava: da história ou da “coxeada''. Lembro que chegava a facilitar o “encaixe''. Pré-adolescente (dez anos), tive companheiro regular na prática de bolinação, onde sempre fui passivo. Aos 15 anos, outro amigo deflorou meu ânus. Depois dessa experiência, parece que foi ligado um “bit'' no cérebro: assumi comportamento heterossexual. De certo modo, “esqueci'' tudo.

Esse comportamento se manteve até dez anos atrás, quando eu e minha esposa passamos a nos “liberar'' sexualmente. Foi um período bem erótico, onde cada um teve uma experiência extraconjugal. Ela envolveu-se com um amigo nosso. Mas isso só ocorreu porque eu a incentivei. Passei então a relembrar a minha infância e adolescência. Nesse momento, aquele bit foi “desligado'' e me senti erotizado com as lembranças.

Minha esposa sabe que sou bissexual, mas não que desejo voltar a me relacionar com homens. Independente de voltar a transar, estou consciente de minha bissexualidade. E me sinto bem. Lido com esse desejo da mesma forma que lido com o desejo por outra mulher. Há várias amigas de minha esposa que adoraria levar para cama. Ser bissexual não é um bicho de sete cabeças. É apenas uma faceta de homem comum.”

***

“Amo meu marido, sempre tivemos um ótimo sexo, e não quero me separar dele. Só que aconteceu algo totalmente inesperado. Nunca havia me passado pela cabeça que eu poderia me interessar por uma mulher. Só que conheci Cris e me apaixonei. Começamos a fazer um curso de especialização juntas. Diversas vezes fui à sua casa fazer trabalhos do curso. Um dia, quase que por acaso, nos beijamos. Fiquei bastante assustada com meus próprios desejos, mas mesmo assim resolvi ir em frente. Estamos tendo uma relação maravilhosa, de muito amor e muito sexo. Às vezes, nem acredito que isso está acontecendo comigo.”

***
O fato é que nunca se falou tanto em bissexualidade como dos anos 90 para cá. A manchete de capa da revista americana Newsweek de julho de 1995 era: “Bissexualidade: nem homo nem hétero. Uma nova identidade sexual emerge.”

A atriz americana Jodie Foster teve seu desejo sexual por mulheres revelado num livro escrito por seu próprio irmão. Entrevistada pelos jornais, declarou: “Tive uma ótima educação, que nunca me fez diferenciar homens e mulheres.” Essa discussão existe desde a década de 70.

A Newsweek de 27 de maio de 1974 trouxe uma matéria em que a cantora Joan Baez declarava que um dos maiores amores de sua vida havia sido uma mulher e que, após quatro anos de relacionamentos exclusivamente lésbicos, estava namorando um homem.

As estatísticas mostram que a grande maioria já sentiu, de alguma forma, desejo pelos dois sexos. Na pesquisa feita pelo americano Harry Harlow, mais de 50% das mulheres, numa cena de sexo em grupo, se engajaram em jogos íntimos com o mesmo sexo, contra apenas um por cento dos homens. Entretanto, quando o anonimato é garantido a proporção de homens bissexuais aumenta a um nível quase idêntico.

A mentalidade patriarcal, que definiu com tanto rigor o masculino e o feminino, está perdendo as suas bases. É cada vez mais difícil encontrar diferenças entre anseios e comportamentos de homens e mulheres. Todos desejam ser o todo, não ter que reprimir aspectos de sua personalidade para corresponder às expectativas de atitudes consideradas masculinas ou femininas.

Marjorie Garber, professora da Universidade de Harvard, que elaborou um profundo estudo sobre o tema, compara a afirmação de que os seres humanos são heterossexuais ou homossexuais às crenças de antigamente, como: o mundo é plano, o sol gira ao redor da terra. E pergunta: “Será que a bissexualidade é um ‘terceiro tipo’ de identidade sexual, entre a homossexualidade e a heterossexualidade — ou além dessas duas categorias?” Acreditando que a bissexualidade tem algo fundamental a nos ensinar sobre a natureza do erotismo humano, ela sugere que em vez de hétero, homo, auto, pan e bissexualidade, digamos simplesmente ‘sexualidade’.

O que você pensa a respeito dessa afirmação?

Fonte Blog da Regina Navarro Lins
Por Regina Navarro Lins
Ilustrações via Web

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