sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Após ter vida pessoal exposta, Leonardo Vieira declara: "Eu estou tão leve"


Em entrevista, o ator se emociona ao contar que já sofreu muitos preconceitos
As lágrimas surgiam discretamente no rosto de Leonardo Vieira, 48 anos, mas o sorriso não desapareceu em nenhum momento.

A expressão do ator, que alcançou a fama como o fazendeiro José Inocêncio, na primeira fase da novela Renascer (Globo, 1993), é serena, como de quem se livrou de um peso.

“Na verdade, foi um Planeta Terra que saiu das minhas costas. Eu estou muito, mas muito aliviado de poder dar uma entrevista sem me preocupar com nada”, comemora o ator, que falou com exclusividade a CONTIGO!.

A tranquilidade com que conversa é inesperada, já que, desde o fim do ano passado, ele está dentro de um turbilhão de emoções. No penúltimo dia de 2016, várias fotos suas beijando um amigo na boca viralizaram pela internet e ele passou a ser ofendido e hostilizado intensamente nas redes sociais. Na segunda-feira (9), ele resolveu se pronunciar com uma carta aberta esclarecendo a situação e condenando a homofobia.

“Essa história de ser gay e não poder falar sobre sempre esteve na minha cabeça a vida inteira, principalmente pela pressão de trabalhar na TV e ter sido chamado de galã. Eu nunca fiquei confortável nessa situação, pois não sou um cara de mentiras. Até aquelas pequenas, inofensivas, eu não gosto. Porém, minha intuição sempre me disse que, um dia, esse momento iria chegar. E ele veio na hora certa, quando as fotos acabaram sendo publicadas na internet. No momento, achei que tinha caído uma bomba no meu colo. Depois, entendi o presente que eu havia ganhado. Hoje, eu não falo só por mim, mas por todos aqueles sem condições de se expressar dignamente”, enfatiza. A seguir, confira a entrevista com o ator, que está em cartaz com a comédia Nove em Ponto, no Teatro Folha, em São Paulo, às quartas e quintas.

O que passou na sua cabeça quando viu as fotos de um momento íntimo sendo exposto na internet?
Quando acordei, na manhã do dia 30 de dezembro, eu abri o site e me vi beijando outro cara. Na hora, não dei muita bola pois eu precisava cuidar de um machucado, então, não me preocupei tanto assim. No entanto, passado o susto do meu tombo, eu vi que tinha caído uma bomba no meu colo. Era como se alguém tivesse falado pra mim: ‘vai e resolve esse problemão’! Me senti dentro de uma catapulta direcionada para o furacão.

Teve medo de entrar nesse furacão?
Não, pois eu finalmente me sentia preparado para enfrentar o que viesse. Estou com 48 anos e maduro, sei exatamente quem eu sou, não preciso me esconder... Eu sabia que poderia segurar essa barra. Hoje, eu não falo só por mim, mas por todos aqueles sem condições de se expressar dignamente e que sofrem injúrias de várias maneiras possíveis

Você chegou a sofrer algum preconceito fora das redes sociais?
Eu sofri o pior de todos, aquele que é sutil, mascarado e só percebe quem passa. Algumas pessoas já me olharam diferente, os convites diminuíram quando boatos começaram a surgir... Procurei a polícia para dar queixa pensando: se eu, que tenho uma ótima condição social, já sofro com isso, imagina quem não tem nada! Tentei me colocar no lugar do outro, trabalho em uma ONG, sou ferrenho defensor dos direitos humanos, não poderia ficar calado em uma situação assim.

Como foi o processo de escrever a carta aberta?
Depois do ocorrido, eu parei pra pensar sobre qual seria o próximo passo. Assim que eu decidi expor e falar abertamente, comecei a articular o texto. Procurei amigos para me orientar e passei dias pensando nas palavras. Eu ligava o computador na madrugada para digitar algo que vinha à cabeça. Fiz questão de elaborar tudo com muita calma e levei quatro dias para escrever tudo. Foi e ainda continua sendo uma catarse.

Você contou com o apoio de amigos e familiares nesse momento tão crucial?
Eu tenho uma família incrível e os amigos, nem se fala. Pessoas que não falavam comigo há tempos vieram se solidarizar com minha carta. Eu fico até emocionado em falar dessa força, principalmente do meu pai. Publiquei uma carta que ele me escreveu no meu Facebook. Chorava tanto quando li as palavras dele, era o apoio que eu mais precisava.

Seus pais sempre te apoiaram?
Eu contei para eles que era gay meio forçado. Meu irmão mais velho (Gustavo, 50) me viu beijando um menino, aos 15 anos, e foi falar para os dois e tudo se transformou em um drama familiar gigantesco. Fiquei anos sem falar com o Gustavo. Meus pais têm formação católica e o meu pai é militar, então, imagina a minha situação em casa. Hoje, eles são a força que eu tenho, a base de tudo, porém, demorou muito até eles aceitarem a minha sexualidade. Se hoje a minha mãe manda beijo para algum ex-namorado meu, é porque foram anos e anos de muita conversa e paciência. Afirmo, sem medo, que foi um processo longo e doloroso.

Qual é a sensação de poder viver sendo você mesmo?
A melhor de todas, de verdade! Eu só posso agradecer ao site, ao fotógrafo e ao universo por poder ser livre. Sabe o que é andar na rua sem ter medo de que alguém veja você com um outro homem ou de ser descoberto? É o paraíso! (risos) Eu estou tão leve, como se um caminhão tivesse saído de mim. Na verdade, foi um Planeta Terra que saiu das minhas costas. Eu estou muito, mas muito aliviado de poder dar uma entrevista sem me preocupar com nada. Ontem, eu fui pagar uma conta e fui andando até o lugar. Do nada, eu percebi que estava sorrindo e cumprimentando todo mundo que passava perto de mim. É tanta felicidade que eu precisava compartilhar. Poder encarar o mundo sorrindo é o presente mais incrível de 2017 e olha que estamos só no começo!

Você disse que não saiu do armário porque nunca esteve dentro de um...
Nunca estive mesmo. Eu negava a minha sexualidade quando era criança, porém, quando entendi que era gay, não me escondi mais. Minha mãe até tentou me colocar na terapia para me ‘curar’, mas eu tive a atitude de enfrentar e dizer que não era uma doença, e sim algo natural. Escolhi não me expor por causa do meu trabalho, mas continuava com a minha vida normal. Namorei muito, saí e me diverti bastante. Eu me resguardei para proteger as pessoas que eu amo e o meu trabalho. Tenho certeza que perdi vários papéis e os convites diminuíram quando os primeiros rumores saíram.

Espera gerar reflexão com a sua carta? Quer que as pessoas compartilhem a mesma felicidade?
Com certeza! Não só a possibilidade de sair tranquilo na rua, mas também de ter seu direito de cidadão reconhecido. Quando consultei meus advogados para dar queixa, eles me falaram que as leis de crimes virtuais só valem para ofensas racistas e homofóbicas. Eu quero tentar mudar essa questão! Fiquei feliz com o texto que o Jean Wyllys (deputado federal, 42) escreveu sobre a carta. Quero gerar um debate e uma reflexão não só na sociedade, mas também nos altos comandos deste país. Homofobia é crime, pois gera violência e mortes e precisa, definitivamente, mudar. O caso do ambulante que foi morto ao tentar defender um travesti é só mais um infeliz exemplo. Essa atitude dos assassinos é medieval. Cheguei a receber ameaça de morte pelo e-mail da produtora da peça que estou fazendo em São Paulo. Vão me dizer que isso não é crime? Parem, por favor!

Você acha que o Brasil está preparado para ter um galã gay?
Eu realmente não sei te responder essa pergunta, só o tempo vai nos mostrar. Espero que os convites para novos papéis não diminuam e que as pessoas recebam o meu trabalho com respeito. Kevin Spacey, Jim Parsons, Ellen DeGeneres e o Marco Nanini são exemplos de que a nossa sociedade está começando a respeitar os homossexuais.

Que conselho você dá para as pessoas que desejam assumir a sua condição sexual e têm medo?
Primeiro, você não tem obrigação nenhuma de se assumir, só fale se você sentir necessidade. É claro que isso tudo varia de pessoa para outra, mas é um dos princípios que eu sigo. E, se elas sofrerem qualquer tipo de preconceito, que procurem a polícia, família e amigos para lutar contra esse mal. É um longo caminho, mas vale a pena. Se eu subir um degrauzinho em direção à liberdade e à aceitação, eu estou muito satisfeito!
Fonte ACapa

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